Televisão

“Lincham Conká, mas atravessam a calçada para o Lucas”, diz psicóloga

Karol Conká 7 RED
Karol Conká 7 RED

Na noite desta terça-feira (23/2), gritos de comemoração ecoaram de janelas em vários pontos no Brasil para celebrar a eliminação da participante do BBB 21 Karol Conká, eliminada com índice recorde de votação (99,17%). Entre os berros de satisfação, xingamentos racistas como “macaca” se repetiram. O filho da cantora passou a ser alvo de ameaças e ela terá seguranças para garantir sua integridade fora do programa de TV.

O BBB é uma mistura de jogo e novela, vida real e ficção — o programa tem edição, roteiro e interferência de patrocinadores. É de se esperar que existam torcidas, favoritos e vilões, e que as pessoas sejam responsabilizadas por comportamentos socialmente inaceitáveis, como as atitudes de Karol, que humilhou colegas, mentiu e envolveu outros participantes em manipulações.

Além da eliminação do reality, ela teve contratos cancelados, perdeu um programa de TV e milhões de reais. Mas, para alguns, não é o suficiente. De onde vem o ódio que extrapola os memes, as redes sociais e faz com que pessoas ameacem de morte um ser humano?

Em entrevista ao Metrópoles, a doutora em psicologia Nathália Diórgenes (UFPE) falou sobre as raízes históricas desse comportamento, o que acontece quando o desejo de vingança sobrepõem-se ao senso de justiça e o que o BBB ensina ao Brasil a respeito de racismo, violência e genocídio da população negra.

Nathália Diórgenes também é professora universitária, assistente social, militante da Marcha Mundial de Mulheres e conselheira do Conselho Regional de Serviço Social de Pernambuco. 

Dá onde vem o ódio – e não simplesmente a rejeição e responsabilização – à Karol Conká?

Fui dormir em um país onde 21 mil jovens negros são assassinados por ano, no qual a população carcerária é majoritariamente negra e acordei no país mais justo do mundo. Isso é uma ilusão. O Brasil não quer justiça, quer o debate do ódio. Foi angustiante ver o comportamento da Karol Conká no programa, não é isso que está em questão. Mas ninguém ali disse nada. A omissão também é violenta, o ódio só caiu sobre ela que estava ali performando um comportamento inaceitável para uma mulher negra.

É um ódio que não é ao comportamento de Karol. Se fosse assim, as pessoas teriam essa reação em diversas situações. Ela tratou um jovem negro como lixo, mas essas pessoas que estão indignadas passam por um Lucas e mudam de calçada. Não existe comoção com relação a morte de jovens negros. É um ódio a ela e é racial.

Qual é o peso do gênero e da raça nessa equação?

O racismo construiu a figura da negra ruim, a má, que roubava o marido da sinhazinha, como é mostrado em Casa Grande e Senzala. Marcaram o rosto das escravas com ferro porque elas tinham “dormido com o patrão”. O nome disso era estupro. Há no imaginário coletivo a figura da negra má, barraqueira, raivosa. São imagens importantes para a manutenção do racismo.

Se fosse uma mulher branca fazendo aquilo tudo que Karol fez ela provavelmente seria colocada para fora, rejeitada, perderia contratos, mas não nessa mesma proporção. 

Muita gente usa o termo “racismo recreativo” para se referir a essa edição do BBB. Como você avalia esse entendimento?

O BBB proporcionou para o povo brasileiro o racismo como um crime perfeito. Proporciona para o nosso racismo o que estávamos esperando há muito tempo: poder dizer que a culpa pelos infortúnios dos negros é deles. 

A gente, negro, precisa representar uma raça inteira quando está em um lugar, representar todo um povo que foi escravizado por séculos. Isso retira de seres humanos a pluralidade, a subjetividade. A gente precisa ser avaliado pelas nossas ações individuais, não por estereótipos. 

O BBB não é aleatório, ele vem com um debate racial após homens negros serem asfixiados, em um momento em que apontamos as mulheres negras como maiores vítimas de feminicídios. O BBB vem para esvaziar o significado disso tudo, para dizer: “olha como eles (negros) são!”. O BBB 21 é um recado. Desde o começo quando começaram a comemorar a presença de pessoas negras, na mesma hora eu disse: vai dar errado e realmente deu. 

As pessoas sabiam do comportamento daquelas pessoas antes de colocá-las lá e não é à toa que é o BBB com a maior audiência.

É adequado resumir essa situação da Karol Conká a uma cultura de cancelamento?

Na minha visão, não. Isso tudo não tem que ser tido apenas como cancelamento. Esse debate é sobre linchamento. E não é a mesma coisa. No cancelamento, uma pessoa pública deixa de ser consumida. Não foi simplesmente isso que aconteceu. 

Outras violências estão presentes aqui: a ameaça ao filho, xingamentos racistas, ao ponto dela precisar de seguranças e ter a integridade física ameaçada. A Lumena também está recebendo ameaças de morte e xingamentos racistas. Saímos do formato do linchamento moderno para o linchamento clássico, que o Brasil conhece bem. 

Por que o linchamento de pessoas negras é socialmente aceito por tanta gente?

O linchamento tem raízes escravocratas. No pós-abolição foi criada uma série de mecanismos para se manter a dominação, as leis de segregação. Crimes que eram cometidos no sul dos Estados Unidos, por exemplo, eram automaticamente atribuídos a pessoas negras, em especial os casos de estupro, como relata Ida D. Wells. Isso não se desconstrói da noite para o dia, é estrutural e fica impregnado nos papéis que as pessoas atribuem às pessoas negras.

É preciso lembrar da figura daquele jovem negro que foi amarrado em poste no Rio de Janeiro e açoitado, acusado de roubo. O que muitas pessoas sentem prazer em ver é um corpo negro pendurado sangrando. A reação é desproporcional. Trata-se de uma violência racial. 

Qual é o limite entre a vingança e a justiça?

Especificamente nesse debate do linchamento, há essa percepção de que as pessoas confundem vingança com justiça. Quando um homem vai preso por estupro, por exemplo, desejam que ele sofra o mesmo crime que abominam, e todos abominam o estupro. É o espetáculo da contradição.

O ódio não é ao comportamento, é à pessoa. As pessoas incorporam esse sentimento fingindo se importar com justiça, porque isso dá legitimidade, mas no final o objetivo é continuar destilando ódio. E esse é um mecanismo do racismo. 

E quais são as raízes desse comportamento sádico?

As raízes são históricas, a forma como a gente se comporta coletivamente tem uma construção social no Brasil. Essa direção é muito dada por um país com uma direção autoritária. O autoritarismo mostra a construção do tecido social do nosso país.

A gente tem no Brasil uma série de comportamentos – e eu não sou a favor de linchamento em nenhuma situação. Temos torturadores do regime militar que até hoje convivem com a sociedade. O Brasil rejeita a Comissão da Verdade. Se fosse um país tão “justo” essas pessoas seriam o “alvo”, mas não são. São homens brancos e livres. A comissão é uma busca por justiça, mas isso o Brasil não clama.

Outro ponto é que uma das ideologias mais primárias é a escravocrata, que é um modo de produção de base ideológica. Nossa mentalidade coletiva está completamente impregnada por isso. A gente tem essa mão que constrói a gente enquanto povo em nossa complexidade.

Vemos “vilões” na ficção e na vida real que ganham o coração do público. Por que isso acontece?

Existem vilões nas novelas que são endeusadas, a Nazaré Tedesco roubou uma criança e as pessoas a apelidaram carinhosamente de Naza. Pela falta de respeito à subjetividade, as pessoas não permitem que negros tenham comportamentos distintos. 

Vemos homens brancos famosos que são denunciados por estupro, violência doméstica e não passaram por isso. Com eles a reação é proporcional: respondem na Justiça, perdem o emprego. Isso é justiça. Reparação e responsabilização são importantes. Justiça social não é vingança.  

Outros participantes em outras edições do BBB eram escancaradamente racistas e violentos. Estamos vendo o rechaço do Brasil inteiro a uma mulher negra, que fez coisas horríveis, está sendo punida em uma medida que pessoas brancas não foram. Se fosse questão de justiça, pararia na eliminação do programa.


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